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Áreas Rurais de Baixa Densidade

O Prof. António Covas da Universidade do Algarve sintetizou a problemática das Áreas Rurais de Baixa Densidade, no âmbito do 1º Encontro Nacional sobre esta problemática. Um texto a não perder.

Ainda do mesmo autor, segue a transcrição do texto "O espaço rural: de espaço produtor a espaço produzido"

À medida que a cadeia de valor alimentar se foi afastando da matéria-prima agrícola, isto é, à medida que a industria e a cidade foram determinando o ciclo de vida da produção alimentar, a produção teórica da economia rural deixou de falar de espaço rural como um espaço-produtor para falar dele, cada vez mais, como um espaço- produzido. É certo que a actividade agrícola e florestal ainda delimita a paisagem dominante, mas o mundo rural é, hoje, um palco imenso onde se desenrolam todas as representações do mundo actual, das mais paroquiais e populares às mais cosmopolitas e sofisticadas. Em boa verdade, trabalhamos mais com representações do mundo rural, quase todas de proveniência e inspiração urbanas, do que com o “mundo rural propriamente dito”. Estas representações alimentam, de resto, a produção teórica sobre o mundo rural por via de binómios, dualidades e polarizações, em redor dos quais redesenha, ela também, novas representações da “dita realidade”. E, paradoxalmente, ou talvez não, são estas mesmas representações, práticas e teóricas, que criam as novas procuras e os mercados emergentes que atravessam, hoje, em todas as direcções, o espaço rural, matéria-prima de que o “marketing” territorial se apropria para fazer a sua particular estratégia de publicidade e comunicação.
Assim, os urbanos criaram, em primeiro lugar, a dualidade urbano-rural para marcar a superioridade do seu modelo industrial e do seu território urbano ou para se auto- convencerem dessa superioridade. Hoje, após décadas de artificialização do seu insustentável habitat urbano, recriam uma imagem idílica e nostálgica do mundo rural que já não existe. Não é por acaso que se fala, hoje, de agricultura urbana e de hortas sociais ou comunitárias, a lembrar a antiga cintura saloia das grandes cidades.
Do binómio/dualidade em redor dos territórios passámos para a polarização em redor dos produtos. Em pano de fundo, os produtos frescos e as suas sucessivas transformações, um “claro sinal de progresso”. Os acasos do progresso e os acidentes de percurso têm explicado, mal ou bem, as repetidas crises alimentares mas não evitam a polarização da discussão em redor do conceito de segurança alimentar/rastreabilidade dos produtos, logo surgindo, associado a este, o binómio agricultura convencional- agricultura biológica.
Mais recentemente, e na mesma linha de raciocínio, a polarização centra-se sobre os valores naturais intrínsecos, sobre a conservação e a biodiversidade dos recursos naturais, em redor de uma acepção larga do binómio agricultura-ambiente.
Cada uma destas abordagens cria a sua própria verdade, mas, também, o seu arsenal de “propaganda”, ideias simplistas e imagens desfocadas sobre “o seu” mundo rural.
Temos, assim, um mundo rural que é uma espécie de campo de forças em busca de um novo equilíbrio, se quisermos, uma espécie de” não-modelo”, em que nenhuma das representações ainda se tornou maioritária para assentar uma nova realidade agro-rural.
Estamos, portanto, numa situação transitória, num momento de mudança, em que os valores específicos da ruralidade, mais tradicionais ou mais modernos, são objecto de apropriação por actores muito diversos que os usam para estratégias muito variadas que, para simplificar, podemos apelidar de “marketing comunicacional”. Não vamos discutir, aqui e agora, a bondade ou maldade destas estratégias de apropriação levadas a cabo por interesses diversos, desde os mais comerciais até aos mais culturais. O que importa realçar, nesta altura, é a evidência de que o espaço rural se transmutou de espaço- produtor em espaço-produzido. Esta transmutação, feita essencialmente por agentes citadinos ou urbanos, significa umas vezes verdadeira modernização agrária, outras vezes turistificação vinícola, oleícola ou cinegética, outras vezes, ainda, simples elemento decorativo para “happenings” cosmopolitas, aproveitando a amenidade de uma barragem, de um rio ou outra linha de água. Tudo isto, para além, obviamente, do “folclore local” que vende ao passante de ocasião os “produtos típicos” da região.
Quer dizer, estamos em plena fase de artificialização do espaço rural, espaço reconstruído a partir de elementos exteriores de proveniência muito diversa, que se combinam com a paisagem rural para fazer uma espécie de decoração de interiores, ao sabor da imaginação comunicacional, publicitária e comercial dos seus promotores.
Todos os dias os meios de comunicação social nos fazem chegar estas incursões urbanas em meio rural, como casos de “sucesso fulgurante”, devidamente acompanhados de elementos publicitários que visam passar a imagem da moda, a saber, a sábia combinação do tradicional e do moderno.
O que se lamenta, nesta trajectória, não é a quantidade e a qualidade destas incursões urbanas em meio rural, que muitas virtudes terão, mas, antes, a ausência quase absoluta das associações científicas, técnico-profissionais e sindicais do mundo agro-rural que se demitiram de ter voz própria sobre os problemas que o afectam. Fica-se com a sensação de que a subsídio-dependência dos últimos vinte anos envergonhou de vez os representantes do sector agrícola e do mundo rural e que a distorção de imagem assim produzida teima em persistir. O mesmo acontece com o mundo universitário e politécnico na área das ciências agrárias e da economia e sociologia rural que perdeu alunos e públicos, nos últimos anos, ao nível das formações inicial e contínua. Já para não referir a própria a instituição política “Assembleia da República” que acabou com a comissão parlamentar de agricultura, sem um único gemido que se ouvisse por parte do mundo rural. E, no entanto, apesar de todas as dificuldades, o mundo rural volta a estar na moda, como, de resto, é fácil de constatar na comunicação social.
O tempo que vivemos é de um silêncio ensurdecedor. Aguarda-se uma nova distribuição de subsídios. Ninguém está interessado em causar muita turbulência. Atenção que o espectáculo vai continuar.
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