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O Último Guardador de Cabras

Viaja-se na EN18 em direção a Castelo Branco. Nas proximidades de Alpedrinha, de vez em quando, somos surpreendidos por um fato de cabras. Ao escrever a palavra fato, esclareço que se trata de um conjunto de animais caprinos nas encostas da Serra da Gardunha, como aprendíamos na escola primária. Com tantas reformas e contra-reformas no ensino, talvez já não seja necessário saber o que é um cardume, um pombal, uma vara, uma manada…

Numa tarde soalheira de sábado, concluídas algumas diligências, marcamos encontro no território das pastagens das cabras. António Patrício Tinalhas recebe-me com muita cordialidade, tendo o cuidado de desligar o pequeno rádio portátil.

O nosso guardador de cabras tem raízes nos Enxames, mas nasceu na Fatela há sessenta e oito anos.
Cedo lhe colocaram um rebanho para acompanhar, muitas vezes à custa de faltar à escola. Apesar disso, ainda conseguiu exame da 4ª Classe no Fundão.
Na pastorícia andou, até ser incorporado no serviço militar, que iniciou em Leiria, passando por Castelo Branco e Extremoz durante três anos.
Regressado à vida civil, o pai confiou-lhe o rebanho e o trabalho agrícola, estimulando-o com um vencimento. Todavia, com um salário diário de sessenta e cinco escudos (as mulheres ganhavam vinte e cinco), não conseguiu ficar preso às tarefas do campo. Depressa arranjou passador e “saltou” para Toulouse em França.

Durante catorze anos, esteve ali emigrado, começando por trabalhar numa Fábrica de Curtumes, onde as peles de gado caprino chegavam do Norte de África: Argélia, Tunísia e Marrocos. Seguiu-se o desempenho da função de motorista numa empresa de telecomunicações e, por último, a elaboração de componentes automobilísticos.
Só tem a dizer bem dos tempos na França. No entanto, com os filhos em idade escolar, a entrada de Portugal na CEE e a expectativa de condições laborais e salariais idênticas às de França, decidiu regressar ao seu país natal. Hoje sente que se enganou.
Com as economias francesas, comprou uma casa de habitação e terrenos adjacentes, no Vale dos Clérigos, que recuperou com a implantação de pomares. Voltou novamente à pastorícia, tem essa vocação no seu ADN.

Estamos agora no meio da cabrada: “conheço-as como os dedos das minhas mãos, as mais velhas têm todas um nome: amarela, branca, formosa, cornuda, castelhana, mocha…Se me roubarem alguma sei localizá-la em qualquer local”. O tilintar dos chocalhos, património mundial, não pára e o olhar do Cão Nero, raça Serra da Estrela, está sempre atento a qualquer intruso: “É o meu amigo e companheiro nestas andanças.”
Afirma: “a gente arranja amizade com os animais, acompanhamos e lidamos com eles muitas vezes no dia-a-dia. Ás vezes reconheço que sou áspero, não devia sê-lo.” Todas obedecem ao seu “ ai, ai, ai, fora, fora, uá, uá, uá.”
Esclarece-me que guardar cabras é uma ciência em que se está sempre a aprender. A cabra é um animal inteligente, se faz uma asneira e é repreendida fica escaldada, não volta ao mesmo local tão depressa. A cabra berra ao morrer, mas nunca berra se tiver fome. A ovelha já faz o contrário.
Na proteção da natureza, são as melhores roçadoras das nossas florestas contra os fogos, além de não deixarem os folhedos no chão. Observamos alguns espaços onde não passam as cabras e lá estão silvados e arbustos a dificultar as passagens.
A cabra tem sempre tendência a ir para os pontos mais altos, sobe e nunca desce - tivemos essa experiência enquanto se tomava um café no Cerejal.
O nosso Homem, vendo a cabra lá no alto, desabafava: “Se faço contas, esta vida de pastor não compensa, é uma vida de prisão, difícil, não somos senhores do nosso tempo, não podemos ir a um funeral, a um convívio familiar ou de amigos. Aguento mais um ano, sou o último guardador de cabras de Alpedrinha.”

Texto de António Fernandes e fotografia de João Branco