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"O poder da internet deve servir o mundo"

por Laurinda Alves, Publicado em 25 de Agosto de 2009

Diogo Vasconcelos, 43 anos, director da Cisco e um dos quatro Distinguished Fellow que a empresa tem em todo o mundo, é a nata da nata em matéria de inovação e novas tecnologias. Mora em Londres mas viaja permanentemente por todos os continentes. Colaborou com Cavaco Silva e foi o "homem do Presidente" para o mundo digital. Trabalhou com Durão Barroso e está em contacto directo com Jorge Sampaio

Acaba de ter uma reunião em teleconferência com a Casa Branca. As conferências assim aproximam pessoas de todo o mundo. Quando as pessoas comuns têm a possibilidade de se conhecer sentem que é mais aquilo que nos une que o que nos separa?
Muitas pessoas crescem em diferentes regiões do mundo sem se conhecerem. Faltam canais para promover o entendimento. Compreender o outro não é um luxo, é uma pré-condição do diálogo. Um dos projectos que lidero na Cisco chama-se precisamente Dialogue Cafe. Baseia-se numa ideia simples mas radical: as pessoas têm mais em comum que aquilo que as divide; se lhes dermos a possibilidade de se encontrarem vão explorar interesses comuns, desencadear colaborações e estimular ideias sobre como enfrentar problemas.

Como define o contacto directo?
É ter do outro lado da mesa alguém numa imagem com a mesma dimensão, em tempo real. Deixa de ser "o outro" em abstracto: passa a ser alguém com quem me posso relacionar, que está "ali" à minha frente, olhos nos olhos - mesmo a milhares de quilómetros de distância. O Dialogue Cafe vai criar janelas entre mundos diferentes, a partir de espaços públicos do tipo café. No seu discurso do Cairo, o presidente Obama disse que queria tornar possível que um jovem do Kansas falasse directamente com um jovem do Cairo. Não é apenas uma metáfora: vai mesmo acontecer graças ao Dialogue Cafe. Daí o interesse da Casa Branca neste projecto.

É um critério de humanidade e igualdade?
Trata-se de permitir o acesso de pessoas comuns a tecnologias de videoconferência hipersofisticadas que neste momento só são acessíveis a grandes empresas. Conferências entre Londres e Doha sobre comunidades de fé e história. Social entrepreneurs de Nova Iorque a aprender coisas sobre a vida cívica em Istambul. Jovens artistas do Cairo a partilhar o seu trabalho com artistas de Londres. Workshops simultâneos de teatro ou música entre Rio, Lisboa, Paris e Chicago. As possibilidades são infinitas. Se andarmos por Israel e pela Palestina, por exemplo, descobrimos facilmente que a esmagadora maioria dos jovens cresce sem se conhecer, estuda em escolas separadas, vive em ambientes separados - e isso tem consequências terríveis. Nós próprios, no mundo ocidental, somos ignorantes em relação a outras culturas. Olhamos, por exemplo, para o Iraque e desconhecemos que Bagdade, através da Casa da Sabedoria, foi nos séculos X e XI o centro mundial do conhecimento em áreas como a matemática, a astronomia, a filosofia, a medicina. Ou seja, é necessária maior capacidade de conhecer o outro.

Como é que nós, portugueses, vamos participar neste diálogo das civilizações?
Vamos pôr em contacto directo, já no próximo ano, cidades tão diferentes como Istambul, Cairo, Nova Iorque, Londres, Doha, Rio de Janeiro e Lisboa. Contamos apresentar o projecto em Xangai, na Exposição Universal, em meados do próximo ano.

Acha que o cidadão comum está cada vez mais apto para a comunicação global e para esse encontro à escala planetária?
A internet representa uma filosofia de transparência, abertura e inteligência colectiva. As redes sociais são apenas exemplos de um mundo cada vez mais em tempo real. Do Irão ao Tibete, a censura já não consegue domar a vontade de um povo inteiro. A net é o mundo em tempo real, está lá, mesmo onde as televisões e os media tradicionais falham.

Resolvem-se problemas reais na rede?
A tecnologia não resolve problemas, as pessoas resolvem problemas. O que a rede vem permitir é as pessoas terem contacto entre elas, sem intermediários e sem limites geográficos, com base em comunidades de interesse. Para terem acesso à informação e produzirem informação, para partilharem conteúdos, para realizarem acções colectivas.

Está a falar dos três níveis de envolvimento sucessivamente mais importantes?
Esse poder da net deve estar ao serviço do mundo, para dar resposta às questões mais prementes. O que se passa na internet permite imaginar o futuro. Da energia à saúde, veremos a lógica do poder distribuído: o acesso a informação sobre consumos de energia em tempo real; ratings feitos pelos pacientes a hospitais e médicos, para todos podermos escolher melhor; bancos de microcrédito que servem de intermediários de empréstimos através da internet e até experiências interessantes de bancos peer-to-peer.

O sistema financeiro vai mudar?
Uma das razões da crise foi a inadequação do sistema de regulação. Os reguladores nunca terão os recursos indispensáveis para aceder, processar e tirar inteligência da informação a que acedem. Estão em total desigualdade perante um sistema financeiro que funciona em tempo real e com recursos quase ilimitados. Se quisermos um sistema regulador do século XXI teremos de usar algoritmos matemáticos para detectar falhas, teremos de ter a inteligência colectiva - minha, sua ou de um perito - para sermos todos reguladores. Isso significa dados abertos a todos, o open source aplicado à regulação.

Na administração pública também são urgentes novas respostas?
Em todos os países, a modernização da administração significou aperfeiçoamento (nalguns casos muito significativo), dos serviços prestados. Se acreditarmos que o Estado não tem o monopólio do serviço público, podemos ir mais longe e iniciar uma devolução de poder aos cidadãos. Uma boa parte da informação não confidencial detida pela administração pública deve passar a ser pública. Não estou a falar de relatórios, estou a falar de bases de dados. Tornar possível aos empreendedores encontrar novas e melhores formas de criar valor através dessa informação. Tornar o Estado um sistema aberto, para permitir colaboração. Um sistema aberto cria novos mercados.

Olho para si e vejo-o na linha da frente, a antecipar o futuro do futuro, com projectos na Europa, nos EUA, no Médio Oriente, um pouco por todo o mundo, e pergunto se podemos agora falar de inovação social na Europa?
[sorriso] Sim, a Europa tem de mobilizar a criatividade colectiva para inovar. Tem grandes tradições de inovação social: das universidades abertas ao movimento cooperativo, da world wide web ao Linux. A actual crise pode ser um ponto de viragem, uma oportunidade de destruição criativa, com emergência de novos actores. As respostas à crise têm de combinar preocupações de curso prazo com preocupações de médio prazo. Isso significa inovar não só nos produtos, mas também em áreas como a saúde e as doenças crónicas ou o envelhecimento da população. A maior parte dos países tem-se centrado muito em corrigir os erros do passado, em vez de em preparar o futuro. "Fixing the future" é aliás o tema de um movimento que ajudei a lançar, com Geoff Mulgan e outros. O documento pode ser subscrito em www.fixingthefuture.eu. A Europa deve ser o sítio onde o futuro acontece primeiro. O presidente da Comissão Europeia deve ser o nosso Chief Innovation Officer.

De que falamos quando falamos de futuro?
De novos padrões de consumo, pois o consumidor tem hoje aspirações diferentes, muito marcados pela ideia de sustentabilidade. Andar de bicicleta era marginal, hoje em Londres e em muitas outras cidades é um movimento imparável e o que parece mal é ainda ter carro. Trabalhar de casa ainda é marginal, mas daqui a alguns anos boa parte das empresas entenderá que trabalho é o que se faz e não onde se está. E quando falamos de futuro falamos de novos sectores de actividade, como o "ageing". Os serviços para a população sénior são provavelmente o sector com maior potencial de crescimento na Europa. Somos um continente em processo acelerado de envelhecimento. Cerca de 18% da população tem mais de 65 anos e daqui a 30 anos será um terço. Não estamos minimamente preparados para isso. Não se trata da bomba demográfica que muitos anunciam, trata-se, a meu ver, de uma grande oportunidade. Um mercado formidável sedento de novas propostas de valor.

Também pode ser uma grande oportunidade de transformação?
Sim, em múltiplas dimensões. A sociedade incentiva as pessoas a reformarem-se demasiado cedo, não as prepara adequadamente para a reforma. Há um declive abrupto que não faz nenhum sentido. É obrigatório interrogarmo-nos sobre como aproveitar o talento dos seniores, que se reformam ainda com 15 a 20 anos de vida pela frente. Como aumentar ou manter a autonomia das pessoas mais velhas, permitindo que se mantenham mais tempo nas suas casas e nas suas comunidades, transformando as suas habitações em centros de dia descentralizados. As cidades são desertos de afectividade.

A lógica que prevalece ainda é uma lógica de utilidade?
É fundamental desenvolver a capacidade das pessoas de continuarem a participar na sua comunidade, continuarem a sentir que são úteis. Esse sentimento é essencial para manterem o sentido de vida. Não basta acrescentar anos de vida, importa acrescentar vida aos anos. Os mais velhos têm de deixar de ser clientes e passar a ser produtores. Deixar de ser cidadãos passivos e passar a ser participantes. Há uma grande diferença entre "fazer para" e "fazer com".

No campo da inovação há por vezes o drama do excesso de ideias e da sua eficácia?
É importante criar o ambiente para que surjam sempre muitas ideias e dar oportunidade a que as mesmas sejam testadas, em pequena escala. Aprender com o que resulta e com o que não resulta também é essencial. A sociedade portuguesa está cheia de observatórios formais, mas subequipada de verdadeiros sensores sociais.

Os políticos e os dirigentes são sensores?
Os políticos do passado são sobretudo megafones. Querem transmitir uma mensagem mas ouvem pouco, salvo através de focus groups. Os políticos do presente e do futuro têm de orquestrar a inteligência colectiva. Têm de saber passar por cima da redoma que os envolve, captar a imaginação e envolver os cidadãos na construção do futuro. Devem impor-se pela confiança e não pelo temor reverencial. O seu desígnio não é um conceito de justiça meramente formal, mas o desenvolvimento das capacidades (no sentido de Aymarta Sen) para que cada um atinja o seu potencial.

Fala dos políticos em geral?
Sim, não apenas dos portugueses. A capacidade de ser sensor e orquestrador está pouco desenvolvida porque a sociedade está organizada na lógica de comando e controlo. Isso verifica-se nas relações laborais e também nas relações entre representantes e representados.

Qual seria a lógica adequada?
A própria gestão das organizações, uma das tecnologias sociais mais importantes, tem de ser totalmente reinventada. Baseia-se nos pressupostos do século XIX: como aumentar a eficiência de operações de rotina. Hoje as organizações têm de ser espaços de trabalho mais adaptáveis, mais inovadores e mais inspiradores. Se os anos 80/90 foram os anos da inovação nas empresas, nos produtos e nos processos, estou convencido de que as próximas décadas vão representar os tempos da inovação social. Foi por isso que aceitei presidir à Social Innovation Exchange, que reúne gente de todo o mundo e nasceu com o apoio da Cisco.

Para fazer o quê, exactamente?
Para encontrar respostas para algumas das questões que estamos a viver, como a pobreza infantil, um fenómeno assustadoramente generalizado mesmo nos países mais ricos, o envelhecimento da população, a degradação ambiental, a hiperdiversidade nas cidades, as doenças crónicas (como diabetes, demência, obesidade, etc.), hoje em dia responsáveis por 80% dos custos da saúde. Todos estes problemas complexos requerem respostas novas, que mobilizem a inteligência colectiva e envolvam os utilizadores (co-criação). A internet permite hoje modelos de inovação aberta e torna mais fácil mobilizar a inteligência distribuída. Tem-se abusado da palavra inovação, mas inovação significa liberdade, partilha de informação, colaboração, rasgo, iniciativa, tolerância e aprendizagem do fracasso.

Quem vai na linha da frente e tem mais essa capacidade?
Uma das faces importantes desta crise deve ser destacar a relevância do terceiro sector. Em Inglaterra as organizações não governamentais na área social (o terceiro sector) empregam 1 milhão e 400 mil pessoas, em Portugal cerca de 250 mil. Ora isto é várias vezes a indústria automóvel, várias vezes a área financeira, várias vezes as utilities. A inovação social cria novos mercados. Em toda a Europa, o défice público disparou e isso significa que na fase da retoma os países vão ter de prestar mais serviços com menos recursos. Há milhares de instituições com provas dadas nas áreas sociais e que podem desenvolver com qualidade um conjunto de serviços públicos. Estão próximos e têm a confiança das populações, têm capacidade e fazem--no com eficiência em termos de custos.

Pode dar exemplos, mais uma vez?
Uma das propostas que fazemos nestas recomendações na União Europeia é justamente dar importância à inovação no sector público. Um exemplo interessante no Reino Unido: as organizações do terceiro sector que se queiram candidatar a prestar serviços públicos em áreas como a educação, a saúde, o ambiente, os serviços para os seniores, têm a possibilidade de recorrer a um fundo (Future Builders) que lhes permite assumir empréstimos a longo prazo com uma taxa de juros simbólica para se capacitarem plenamente para este novo desafio. Na prática estamos a olhar para o serviço público numa lógica mais vasta. Há um conjunto de laboratórios de inovação no sector público, espécie de incubadoras para testar novas ideias numa lógica de inovação aberta. Defendemos que pelo menos um por cento do orçamento de cada ministério deve ser investido em fundos de inovação aberta. O tipo de investimentos apoiado pelo fundo de inovação do Serviço Nacional de Saúde inglês é um bom exemplo.

Isso é uma revolução.
É o fim da lógica de comando e controlo e a assunção plena de uma lógica de rede, de participação e envolvimento de entidades que estão mais próximas das pessoas e das comunidades na prestação de serviços públicos.

in Diário I