Novos Povoadores

Apoiamos familias metropolitanas a instalar negócios em territórios rurais

O fim anunciado dos escritórios




Se o vídeo matou a estrela da rádio, a Web 2.0 poderá vir a matar os escritórios convencionais: de acordo com um estudo no qual participou a Microsoft, a recessão, os dispositivos móveis e a geração que está a crescer com as redes sociais irá revolucionar o mundo do trabalho - haverá cada vez mais pessoas a trabalharem a partir de casa ou remotamente, poupando às empresas os custos de manutenção de um lugar fixo de trabalho. Com o fim anunciado dos telefones de secretária, poderão as próprias secretárias desaparecer?


De acordo com a Computer Weekly, o estudo - produzido por académicos, think tanks do sector público britânico e o Institute of Directors (uma organização britânica que luta pelos interesses dos directores de empresas) - poderá vir a ter um impacto profundo na organização das empresas. Cada vez mais o objectivo será o de dar liberdade de movimentos aos directores das empresas e aos seus funcionários, especialmente daqueles que trabalham no sector das novas tecnologias.

As empresas usarão a tecnologia para se descartarem dos seus escritórios fixos e possibilitarem ao seu pessoal o acesso a escritórios em edifícios partilhados (com outras empresas), ou permitindo-lhes trabalhar de onde quiserem, prevê o relatório.

“As poupanças no curto prazo centrar-se-ão no espaço de escritório. Na melhor das hipóteses, apenas 55 por cento do espaço é ocupado em determinado momento, deixando 45 por cento do espaço por usar. Isso é o equivalente a 45 por cento do valor total que custa manter um escritório”, indicou Dave Coplin, que trabalha para a Microsoft Reino Unido.

Este estudo alerta ainda para os benefícios para a empresa resultantes do uso de redes sociais pelos seus trabalhadores, em vez de as tornarem inacessíveis. “Há aqui uma mensagem para as organizações que bloqueiam ferramentas como o Twitter. Não podem continuar a fazer isso, porque estão a restringir a actividade das pessoas. Confiem na segurança das vossas redes e afrouxem um pouco o vosso controlo”, disse Coplin.

O estudo prevê igualmente que se podem tornar comuns situações de trabalho em que há pessoas de várias empresas diferentes a trabalharem debaixo do mesmo tecto. Ao mesmo tempo que partilham o espaço, os trabalhadores podem igualmente partilhar ideias com pessoas de outros ramos de actividade, com benefícios para todos, prediz o estudo. “Isso já está a acontecer em cidades como Londres, Birmingham e Manchester. Há escritórios que não são detidos por nenhuma organização em particular. Há café, luzes e tomadas ligadas à electricidade”, indicou o mesmo responsável da Microsoft.

“Já temos vindo a falar da morte do telefone de secretária. Agora estamos a falar da morte da própria secretária. Não se trata apenas de trabalhar a partir de casa. Há muitas razões para se trabalhar a partir de um número variado de localizações”, frisou Coplin.


in Publico, por Susana Almeida Ribeiro

Tax People Back Into the Cities


For the first time in history, more than half the world's population live in cities: by 2030, three out of five people will be city dwellers. But the British are bucking this trend. The 2001 census revealed an "exodus from the cities". Since 1981, Greater London and the six former metropolitan counties of Greater Manchester, Merseyside, South Yorkshire, Tyne and Wear, West Midlands and West Yorkshire have lost some 2.25 million people in net migration exchanges with the rest of the UK; in recent years this trend has accelerated.

This is not sustainable. British people need to be cured of the insidious fantasy of leaving the city and owning a house in the country: their romantic dream will become a nightmare for people elsewhere on the planet.

The fact is that rural households have higher carbon dioxide emissions per person than those in the city, thanks to their generally larger, detached or semi-detached houses, multiple cars and long commutes (cars are responsible for 12 per cent of greenhouse gas emissions in Europe - 50 per cent in some parts of the US). The regions with the biggest carbon footprints in the UK are not the metropolises of Glasgow or London, but the largely rural northeast of England, as well as Yorkshire and the Humber. In fact, the per capita emissions of the Big Smoke - London - are the lowest of any part of the UK.

To create a low-carbon economy we need to become a nation of city dwellers. We tax cigarettes to reflect the harm they do to our health: we need to tax lifestyles that are damaging the health of the planet - and that means targeting people who choose to live in the countryside. We need a Rural Living Tax. Agricultural workers and others whose jobs require them to live outside cities would be exempt. The revenue raised could be used to build new, well-planned cities and to radically upgrade the infrastructure of existing cities.

We have an opportunity to create an urban renaissance, to make cities attractive places to live again - not just for young adults, but for families and retired people, the groups most likely to leave the city. Turning our old cities into "smart cities" won't be easy or cheap, but in a recession this investment in infrastructure will boost the economy. We need to learn to love our cities again, because they will help us to save the planet.

P. D. Smith is an honorary research associate in the Science and Technology Studies Department at University College London and author of Doomsday Men: The Real Dr Strangelove and the Dream of the Superweapon (2008). He is writing a cultural history of cities. www.peterdsmith.com

in WIRED, PD Smith

"O poder da internet deve servir o mundo"

por Laurinda Alves, Publicado em 25 de Agosto de 2009

Diogo Vasconcelos, 43 anos, director da Cisco e um dos quatro Distinguished Fellow que a empresa tem em todo o mundo, é a nata da nata em matéria de inovação e novas tecnologias. Mora em Londres mas viaja permanentemente por todos os continentes. Colaborou com Cavaco Silva e foi o "homem do Presidente" para o mundo digital. Trabalhou com Durão Barroso e está em contacto directo com Jorge Sampaio

Acaba de ter uma reunião em teleconferência com a Casa Branca. As conferências assim aproximam pessoas de todo o mundo. Quando as pessoas comuns têm a possibilidade de se conhecer sentem que é mais aquilo que nos une que o que nos separa?
Muitas pessoas crescem em diferentes regiões do mundo sem se conhecerem. Faltam canais para promover o entendimento. Compreender o outro não é um luxo, é uma pré-condição do diálogo. Um dos projectos que lidero na Cisco chama-se precisamente Dialogue Cafe. Baseia-se numa ideia simples mas radical: as pessoas têm mais em comum que aquilo que as divide; se lhes dermos a possibilidade de se encontrarem vão explorar interesses comuns, desencadear colaborações e estimular ideias sobre como enfrentar problemas.

Como define o contacto directo?
É ter do outro lado da mesa alguém numa imagem com a mesma dimensão, em tempo real. Deixa de ser "o outro" em abstracto: passa a ser alguém com quem me posso relacionar, que está "ali" à minha frente, olhos nos olhos - mesmo a milhares de quilómetros de distância. O Dialogue Cafe vai criar janelas entre mundos diferentes, a partir de espaços públicos do tipo café. No seu discurso do Cairo, o presidente Obama disse que queria tornar possível que um jovem do Kansas falasse directamente com um jovem do Cairo. Não é apenas uma metáfora: vai mesmo acontecer graças ao Dialogue Cafe. Daí o interesse da Casa Branca neste projecto.

É um critério de humanidade e igualdade?
Trata-se de permitir o acesso de pessoas comuns a tecnologias de videoconferência hipersofisticadas que neste momento só são acessíveis a grandes empresas. Conferências entre Londres e Doha sobre comunidades de fé e história. Social entrepreneurs de Nova Iorque a aprender coisas sobre a vida cívica em Istambul. Jovens artistas do Cairo a partilhar o seu trabalho com artistas de Londres. Workshops simultâneos de teatro ou música entre Rio, Lisboa, Paris e Chicago. As possibilidades são infinitas. Se andarmos por Israel e pela Palestina, por exemplo, descobrimos facilmente que a esmagadora maioria dos jovens cresce sem se conhecer, estuda em escolas separadas, vive em ambientes separados - e isso tem consequências terríveis. Nós próprios, no mundo ocidental, somos ignorantes em relação a outras culturas. Olhamos, por exemplo, para o Iraque e desconhecemos que Bagdade, através da Casa da Sabedoria, foi nos séculos X e XI o centro mundial do conhecimento em áreas como a matemática, a astronomia, a filosofia, a medicina. Ou seja, é necessária maior capacidade de conhecer o outro.

Como é que nós, portugueses, vamos participar neste diálogo das civilizações?
Vamos pôr em contacto directo, já no próximo ano, cidades tão diferentes como Istambul, Cairo, Nova Iorque, Londres, Doha, Rio de Janeiro e Lisboa. Contamos apresentar o projecto em Xangai, na Exposição Universal, em meados do próximo ano.

Acha que o cidadão comum está cada vez mais apto para a comunicação global e para esse encontro à escala planetária?
A internet representa uma filosofia de transparência, abertura e inteligência colectiva. As redes sociais são apenas exemplos de um mundo cada vez mais em tempo real. Do Irão ao Tibete, a censura já não consegue domar a vontade de um povo inteiro. A net é o mundo em tempo real, está lá, mesmo onde as televisões e os media tradicionais falham.

Resolvem-se problemas reais na rede?
A tecnologia não resolve problemas, as pessoas resolvem problemas. O que a rede vem permitir é as pessoas terem contacto entre elas, sem intermediários e sem limites geográficos, com base em comunidades de interesse. Para terem acesso à informação e produzirem informação, para partilharem conteúdos, para realizarem acções colectivas.

Está a falar dos três níveis de envolvimento sucessivamente mais importantes?
Esse poder da net deve estar ao serviço do mundo, para dar resposta às questões mais prementes. O que se passa na internet permite imaginar o futuro. Da energia à saúde, veremos a lógica do poder distribuído: o acesso a informação sobre consumos de energia em tempo real; ratings feitos pelos pacientes a hospitais e médicos, para todos podermos escolher melhor; bancos de microcrédito que servem de intermediários de empréstimos através da internet e até experiências interessantes de bancos peer-to-peer.

O sistema financeiro vai mudar?
Uma das razões da crise foi a inadequação do sistema de regulação. Os reguladores nunca terão os recursos indispensáveis para aceder, processar e tirar inteligência da informação a que acedem. Estão em total desigualdade perante um sistema financeiro que funciona em tempo real e com recursos quase ilimitados. Se quisermos um sistema regulador do século XXI teremos de usar algoritmos matemáticos para detectar falhas, teremos de ter a inteligência colectiva - minha, sua ou de um perito - para sermos todos reguladores. Isso significa dados abertos a todos, o open source aplicado à regulação.

Na administração pública também são urgentes novas respostas?
Em todos os países, a modernização da administração significou aperfeiçoamento (nalguns casos muito significativo), dos serviços prestados. Se acreditarmos que o Estado não tem o monopólio do serviço público, podemos ir mais longe e iniciar uma devolução de poder aos cidadãos. Uma boa parte da informação não confidencial detida pela administração pública deve passar a ser pública. Não estou a falar de relatórios, estou a falar de bases de dados. Tornar possível aos empreendedores encontrar novas e melhores formas de criar valor através dessa informação. Tornar o Estado um sistema aberto, para permitir colaboração. Um sistema aberto cria novos mercados.

Olho para si e vejo-o na linha da frente, a antecipar o futuro do futuro, com projectos na Europa, nos EUA, no Médio Oriente, um pouco por todo o mundo, e pergunto se podemos agora falar de inovação social na Europa?
[sorriso] Sim, a Europa tem de mobilizar a criatividade colectiva para inovar. Tem grandes tradições de inovação social: das universidades abertas ao movimento cooperativo, da world wide web ao Linux. A actual crise pode ser um ponto de viragem, uma oportunidade de destruição criativa, com emergência de novos actores. As respostas à crise têm de combinar preocupações de curso prazo com preocupações de médio prazo. Isso significa inovar não só nos produtos, mas também em áreas como a saúde e as doenças crónicas ou o envelhecimento da população. A maior parte dos países tem-se centrado muito em corrigir os erros do passado, em vez de em preparar o futuro. "Fixing the future" é aliás o tema de um movimento que ajudei a lançar, com Geoff Mulgan e outros. O documento pode ser subscrito em www.fixingthefuture.eu. A Europa deve ser o sítio onde o futuro acontece primeiro. O presidente da Comissão Europeia deve ser o nosso Chief Innovation Officer.

De que falamos quando falamos de futuro?
De novos padrões de consumo, pois o consumidor tem hoje aspirações diferentes, muito marcados pela ideia de sustentabilidade. Andar de bicicleta era marginal, hoje em Londres e em muitas outras cidades é um movimento imparável e o que parece mal é ainda ter carro. Trabalhar de casa ainda é marginal, mas daqui a alguns anos boa parte das empresas entenderá que trabalho é o que se faz e não onde se está. E quando falamos de futuro falamos de novos sectores de actividade, como o "ageing". Os serviços para a população sénior são provavelmente o sector com maior potencial de crescimento na Europa. Somos um continente em processo acelerado de envelhecimento. Cerca de 18% da população tem mais de 65 anos e daqui a 30 anos será um terço. Não estamos minimamente preparados para isso. Não se trata da bomba demográfica que muitos anunciam, trata-se, a meu ver, de uma grande oportunidade. Um mercado formidável sedento de novas propostas de valor.

Também pode ser uma grande oportunidade de transformação?
Sim, em múltiplas dimensões. A sociedade incentiva as pessoas a reformarem-se demasiado cedo, não as prepara adequadamente para a reforma. Há um declive abrupto que não faz nenhum sentido. É obrigatório interrogarmo-nos sobre como aproveitar o talento dos seniores, que se reformam ainda com 15 a 20 anos de vida pela frente. Como aumentar ou manter a autonomia das pessoas mais velhas, permitindo que se mantenham mais tempo nas suas casas e nas suas comunidades, transformando as suas habitações em centros de dia descentralizados. As cidades são desertos de afectividade.

A lógica que prevalece ainda é uma lógica de utilidade?
É fundamental desenvolver a capacidade das pessoas de continuarem a participar na sua comunidade, continuarem a sentir que são úteis. Esse sentimento é essencial para manterem o sentido de vida. Não basta acrescentar anos de vida, importa acrescentar vida aos anos. Os mais velhos têm de deixar de ser clientes e passar a ser produtores. Deixar de ser cidadãos passivos e passar a ser participantes. Há uma grande diferença entre "fazer para" e "fazer com".

No campo da inovação há por vezes o drama do excesso de ideias e da sua eficácia?
É importante criar o ambiente para que surjam sempre muitas ideias e dar oportunidade a que as mesmas sejam testadas, em pequena escala. Aprender com o que resulta e com o que não resulta também é essencial. A sociedade portuguesa está cheia de observatórios formais, mas subequipada de verdadeiros sensores sociais.

Os políticos e os dirigentes são sensores?
Os políticos do passado são sobretudo megafones. Querem transmitir uma mensagem mas ouvem pouco, salvo através de focus groups. Os políticos do presente e do futuro têm de orquestrar a inteligência colectiva. Têm de saber passar por cima da redoma que os envolve, captar a imaginação e envolver os cidadãos na construção do futuro. Devem impor-se pela confiança e não pelo temor reverencial. O seu desígnio não é um conceito de justiça meramente formal, mas o desenvolvimento das capacidades (no sentido de Aymarta Sen) para que cada um atinja o seu potencial.

Fala dos políticos em geral?
Sim, não apenas dos portugueses. A capacidade de ser sensor e orquestrador está pouco desenvolvida porque a sociedade está organizada na lógica de comando e controlo. Isso verifica-se nas relações laborais e também nas relações entre representantes e representados.

Qual seria a lógica adequada?
A própria gestão das organizações, uma das tecnologias sociais mais importantes, tem de ser totalmente reinventada. Baseia-se nos pressupostos do século XIX: como aumentar a eficiência de operações de rotina. Hoje as organizações têm de ser espaços de trabalho mais adaptáveis, mais inovadores e mais inspiradores. Se os anos 80/90 foram os anos da inovação nas empresas, nos produtos e nos processos, estou convencido de que as próximas décadas vão representar os tempos da inovação social. Foi por isso que aceitei presidir à Social Innovation Exchange, que reúne gente de todo o mundo e nasceu com o apoio da Cisco.

Para fazer o quê, exactamente?
Para encontrar respostas para algumas das questões que estamos a viver, como a pobreza infantil, um fenómeno assustadoramente generalizado mesmo nos países mais ricos, o envelhecimento da população, a degradação ambiental, a hiperdiversidade nas cidades, as doenças crónicas (como diabetes, demência, obesidade, etc.), hoje em dia responsáveis por 80% dos custos da saúde. Todos estes problemas complexos requerem respostas novas, que mobilizem a inteligência colectiva e envolvam os utilizadores (co-criação). A internet permite hoje modelos de inovação aberta e torna mais fácil mobilizar a inteligência distribuída. Tem-se abusado da palavra inovação, mas inovação significa liberdade, partilha de informação, colaboração, rasgo, iniciativa, tolerância e aprendizagem do fracasso.

Quem vai na linha da frente e tem mais essa capacidade?
Uma das faces importantes desta crise deve ser destacar a relevância do terceiro sector. Em Inglaterra as organizações não governamentais na área social (o terceiro sector) empregam 1 milhão e 400 mil pessoas, em Portugal cerca de 250 mil. Ora isto é várias vezes a indústria automóvel, várias vezes a área financeira, várias vezes as utilities. A inovação social cria novos mercados. Em toda a Europa, o défice público disparou e isso significa que na fase da retoma os países vão ter de prestar mais serviços com menos recursos. Há milhares de instituições com provas dadas nas áreas sociais e que podem desenvolver com qualidade um conjunto de serviços públicos. Estão próximos e têm a confiança das populações, têm capacidade e fazem--no com eficiência em termos de custos.

Pode dar exemplos, mais uma vez?
Uma das propostas que fazemos nestas recomendações na União Europeia é justamente dar importância à inovação no sector público. Um exemplo interessante no Reino Unido: as organizações do terceiro sector que se queiram candidatar a prestar serviços públicos em áreas como a educação, a saúde, o ambiente, os serviços para os seniores, têm a possibilidade de recorrer a um fundo (Future Builders) que lhes permite assumir empréstimos a longo prazo com uma taxa de juros simbólica para se capacitarem plenamente para este novo desafio. Na prática estamos a olhar para o serviço público numa lógica mais vasta. Há um conjunto de laboratórios de inovação no sector público, espécie de incubadoras para testar novas ideias numa lógica de inovação aberta. Defendemos que pelo menos um por cento do orçamento de cada ministério deve ser investido em fundos de inovação aberta. O tipo de investimentos apoiado pelo fundo de inovação do Serviço Nacional de Saúde inglês é um bom exemplo.

Isso é uma revolução.
É o fim da lógica de comando e controlo e a assunção plena de uma lógica de rede, de participação e envolvimento de entidades que estão mais próximas das pessoas e das comunidades na prestação de serviços públicos.

in Diário I

"Somos muito maiores que a nossa dimensão!"


A frase que emprestou o título a este post é da autoria de Luís Amado, Ministro dos Negócios Estrangeiros e referia-se à capacidade de intervenção de Portugal no panorama internacional.

Defendia o governante que a nossa cultura e história funcionam como catalizadores nos quadros negociais das diferentes organizações em que participamos.

A reflexão que se segue é sobre os novos factores de competitividade económica. Sabemos que não são exactamente os mesmos que no passado: O poder militar, industrial e financeiro continuam centrais, mas já não absolutistas.

Hoje, o povo português é admirado pela sua simpatia, tolerância religiosa e por um território seguro e com excelentes condições climatéricas.

Na prática, temos todas as condições para ser o El Dorado da mão de obra qualificada que estão suportadas nas tecnologias digitais.

E esse é um motivo de enorme esperança!

As empresas caminham para sedes virtuais - nespresso.com e brother.com são dois exemplos que me ocorreram instantaneamente - e os sistemas de teleconferencia estão totalmente vulgarizados.

O que nos falta?!

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Portugal na rota do Outsourcing



Empresas do sector pretendem criar 10.000 postos de trabalho nos próximos sete anos

A Associação Portugal Outsourcing (APO) quer colocar o nosso país no mapa mundial dos locais que prestam serviços BPO (Business Process Outsourcing). A prioridade é captar clientes de outros países europeus que querem deslocalizar as suas operações e processos de negócio para Portugal (nearshore), tirando partido da proximidade e das diminutas diferenças culturais (em comparação com a Índia ou a China). Segundo Frederico Moreira Rato, presidente da direcção da APO (em representação da Reditus), se esta estratégia for bem sucedida vai ser possível criar nos próximos anos 10.000 postos de trabalho, muitos dos quais fora das grandes cidades. A associação pretende que o sector seja responsável por 1% do produto interno bruto (PIB) nos próximos sete anos, contra os actuais 0,34%. Actualmente, o valor da área de outsourcing cifra-se em €561 milhões, o que está muito abaixo da média europeia (0,61%) e dos países que apostaram forte nesta área. Por exemplo, no Reino Unido representa 1,4% do PIB e na Roménia pesa 2,8%.


Frederico Moreira Rato vai dialogar com o Governo

Muito mais do que simples centros de contacto telefónico, os 15 membros da APO — entre os quais estão empresas nacionais e internacionais como a Accenture, Cap Gemini, Delloite, Glintt, IBM, Indra, Logica, Novabase, Portugal Telecom ou Reditus — pretendem trazer para Portugal centros BPO. Ou seja, pretendem deslocalizar para o país processos de negócio de médias e grandes organizações. Uma transferência que pressupõe a existência de organizações com as melhores práticas e recursos humanos qualificados. “Para que o sector seja bem sucedido, haverá fortes investimentos em formação e qualificação dos trabalhadores”, sublinha Moreira Rato.

Curiosamente, o actual contexto de crise económica até poderá ser vantajoso para o sector. “Há muitas organizações que estão a usar o outsourcing para se adaptarem aos tempos difíceis, na medida em que permite transformar custos fixos em variáveis e obter maior eficiência e qualidade de serviço”, adianta o presidente da APO.


Código de conduta

Mas, para que Portugal se posicione como um destino credível para serviços BPO, a associação (que já representa 81% do mercado nacional) está a procurar que os seus associados adoptem as melhores práticas, de forma a evitar que o bom nome do país no sector possa ser prejudicado pela existência de prestadores com menor qualidade de serviço. “Queremos evitar que uma maçã podre contamine as outras”, diz Moreira Rato. Para o efeito, foram constituídos diversos grupos de trabalho que vão elaborar um código de conduta (coordenado por Fernando Resina da Silva) e enviar propostas ao Governo para criar uma regulação específica ao nível dos contratos de trabalho (tarefa a cargo de Cavaleiro Brandão e Bagão Félix) e da fiscalidade (António Lobo Xavier). “Para sermos competitivos face aos concorrentes, será necessário adaptar o actual quadro fiscal e flexibilizar formas de contratação”, defende o presidente da APO.

A associação quer também promover a adopção do outsourcing na administração pública e está a fazer um estudo de benchmark (comparação) internacional, coordenado por Álvaro Ferreira, em que participará a AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal). “Queremos identificar as vantagens de Portugal para os clientes estrangeiros, nomeadamente da Europa”, refere Moreira Rato.

Para debater estes problemas e colocar em realce as vantagens do país no outsourcing (ver caixa), a APO vai realizar este ano a primeira conferência anual, que trará a Portugal diversos especialistas internacionais, e desencadear um diálogo com o Governo, nomeadamente com Carlos Zorrinho, gestor do Plano Tecnológico.

João Ramos jramos@expresso.impresa.pt



BARREIRAS

LEIS DO TRABALHO

Modelo de remuneração rígido e falta de flexibilidade na contratação. A legislação do trabalho dificulta a prestação de serviços para o estrangeiro

FISCALIDADE

IVA e IRC em Portugal é dos mais elevados da Europa, o que retira competitividade ao sector. E, ao contrário de outros países, não existe regime específico para o outsourcing

CULTURA

Existe uma percepção negativa do outsourcing na opinião pública, ao nível da protecção do emprego e de direitos laborais

IMAGEM

Portugal continua a não ser encarado como uma primeira escolha pelos potenciais clientes internacionais

NÚMEROS

561 milhões de euros é o valor actual do negócios de outsourcing em Portugal, dos quais €267 milhões são de tecnologias de informação e €294 milhões são de BPO)

43 mil postos de trabalho de outsourcing em Portugal são as previsões para 2015, graças ao forte incremento do negócio externo

VANTAGENS

RECURSOS HUMANOS

Disponibilidade de elevada quantidade de recursos humanos qualificados com salários competitivos

FLEXIBILIDADE

Capacidade inata dos portugueses em se adaptarem a outras culturas e facilidade aprendizagem de outras

TELECOMUNICAÇÕES

Rede de banda larga com cobertura e qualidade dentro dos parâmetros dos países mais desenvolvidos

CUSTOS

Em relação a outros países europeus, Portugal tem preços competitivos ao nível de mão-de-obra e de instalações

ESPAÇO EUROPEU

Mobilidade da força de trabalho, bens e capitais é facilitada pelo facto de Portugal fazer parte da zona euro e do espaço Schengen

in EXPRESSO

Deslocalização posta em causa com o choque petrolífero

Paul Krugman cita estudo de Nuno Limão, da Universidade de Maryland

A globalização também prega partidas. O que deu, ontem, com uma mão, pode amanhã tirar com a outra. O terceiro choque petrolífero em curso está a alterar os padrões do comércio internacional. E, por mais paradoxal que pareça, as principais vítimas desta mudança poderão ser as ‘fábricas do mundo’, os campeões do «outsourcing» de produtos e bens físicos, com a China à cabeça.

A avaliação desta alteração estrutural é possível graças a um estudo de Dezembro de 2000 de um economista português radicado nos Estados Unidos. Nuno Limão, professor associado no Departamento de Economia da Universidade de Maryland, conseguiu identificar um indicador que leva uma designação técnica complexa - elasticidade do comércio em relação aos custos de transporte. O artigo científico, que escreveu com Anthony J. Venables, da London School of Economics, apurou que sempre que os custos de transportes aumentam de uma unidade o efeito negativo no comércio é multiplicado por três.

Esta relação foi, recentemente, tirada da prateleira pelo economista Paul Krugman que na sua coluna no ‘The New York Times’ usou a elasticidade encontrada por Limão para apurar a quebra potencial no comércio internacional “se os preços do petróleo se mantiverem aos níveis actuais (na altura, nos 130 dólares) por muito tempo”. Segundo Krugman, a quebra seria de 17% em relação ao ano 2000.

O economista mediático socorreu-se, também, de um estudo da consultora canadiana CIBC que referia que, fruto do disparo do preço do crude desde 2000, os fretes entre a China e os Estados Unidos quase triplicaram. Se os preços estabilizarem nos 150 dólares por barril no futuro, o frete pode ainda aumentar mais 40% em relação aos preços actuais. O que isso significará, com base na elasticidade apurada por Nuno Limão, é que o comércio internacional poderá emagrecer ainda mais 6% em relação ao nível actual.


China na berlinda

Nuno Limão, que nasceu no ano da Revolução do 25 de Abril, sublinha-nos que o «outsourcing» de produtos e bens físicos será o sector que mais vai sofrer. “O caso mais importante será, talvez, o da China, já que se tornou na fábrica do mundo. Dados mais recentes, revelam inclusive que já se nota um abrandamento das exportações chinesas de bens mais sensíveis aos custos de transporte para os Estados Unidos”. O investigador português antevê, por isso, que o «nearshoring», ou seja a deslocalização para regiões próximas dos clientes possa ganhar força. O que poderá acontecer com as ‘traseiras’ dos Estados Unidos (oportunidade, de novo, para o México) e com os países de mão-de-obra mais barata dentro da União Europeia e que a circundam.

Limão, apreciando o que já ocorreu com o falhanço da última sessão da Ronda de Doha, arrisca que outra consequência poderá ser o crescimento do regionalismo. “Esta regionalização do comércio internacional pode ter alguns efeitos negativos, mas é bastante difícil, senão mesmo impossível, calcular um efeito preciso”, conclui este académico, que desde os 16 anos estuda fora.

Ainda adolescente ganhou uma bolsa para estudar no United World College, nos Estados Unidos, depois tirou a licenciatura na London School of Economics, e em 1996 regressou ao outro lado do Atlântico doutorando-se em economia na Universidade de Columbia.

in Expresso, Jorge Nascimento Rodrigues