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A Cidade Inteligente

Para assinalar o seu 30º aniversário, a AESE – Escola de Direcção e Negócios – reuniu cerca de 450 pessoas no Centro de Congressos do Estoril, em torno da discussão de um tema que, para além de actual, se torna cada vez mais urgente: a sustentabilidade e competitividade das cidades. Uma conferência que obriga à reflexão de temas vários e que já não podem ser negligenciados sob pena de fazermos das cidades locais esquecidos, anónimos e desprovidos de qualquer tipo de afectividade
POR HELENA OLIVEIRA

A partir de três grandes painéis, e com oradores prestigiados, foram debatidos novos desafios, estratégias e conceitos em torno não só das questões da mobilidade – uma das áreas-chave desta temática -, mas também no que respeita às infra-estruturas e redes nas cidades do futuro, ao papel das tecnologias, de novas formas de negócio, sem esquecer as questões culturais e de inovação social que encontram terreno fértil neste novo conceito de urbanismo.

Com o director-geral da AESE, Professor José Ramalho Fontes, a fazer as honras de abertura, traçando o já longo percurso desta escola de excelência, o dia terminou, como também já é hábito na instituição, com uma brilhante prelecção do reconhecido Professor Raul Diniz sob o tema “o núcleo da cidade”(v.Caixa) e que identificou o principal desafio da vida quotidiana como axiológico, ou seja, ao nível dos valores.

Um dia repleto de ideias que, decerto, obrigou à reflexão de novos paradigmas que, obrigatoriamente, terão de ser incluídos na forma como pensamos e vivemos as cidades. O VER resume o essencial da conferência.


Ter um carro é comportamento do século passado
Como não poderia deixar de ser, a questão das energias alternativas, as oportunidades de negócios, especificamente nas smart grids e o papel das tecnologias de informação e comunicação como fontes de inovação nas cidades, foi o tema escolhido para dar início ao primeiro painel. Respectivamente, Miguel Matias, presidente da Self Energy, Filipe Santos, da EDP e GBS Bindra, da Logica, traçaram as principais tendências de um mundo urbano que precisa de se soltar das amarras do carbono, de optar por novos comportamentos e, fundamentalmente, de inovar em termos de modelos de negócios que permitam outro tipo de vivências.

A questão da mobilidade foi central no debate. Com uma apresentação a cargo de Hans Rat, secretário-geral da União Internacional de Transportes Públicos, com sede em Bruxelas, secundado pelo Professor do IST, Tiago Farias, um confesso céptico no que respeita à tão desejada mobilidade eléctrica, a questão dos hábitos pessoais e sociais adquiriu importância extrema nos temas abordados.

Com uma estimativa que aponta para que, em 2050, 84 por cento da população da União Europeia viva em centros urbanos, Hans Rat apelou à urgência de novos modelos de mobilidade e sustentabilidade. Para além dos benefícios óbvios inerentes à utilização de uma boa rede de transportes públicos, com ganhos visíveis em termos de eficiência energética e menor poluição, o responsável alertou igualmente para a necessidade de se usar, de forma mais eficaz, o espaço urbano e para os ganhos económicos de uma Europa que tem que optar entre a dependência do automóvel e a mobilidade sustentável. A título de exemplo e na Europa a 27, os operadores das redes de transportes públicos empregam 1 milhão e 200 mil pessoas e, face à conjuntura de crise actual, o reavivar de investimentos nesta área crucial tornou-se urgente depois de décadas de manifesta negligência destes desafios e oportunidades.

Frisando o enorme potencial de crescimento inerente ao sector dos transportes públicos, Hans Rat afirmou ainda que estão já em curso várias estratégias para duplicar a utilização destes meios de transporte até 2025. Para tal, a Europa terá de integrar serviços de life style como uma sedutora opção para os cidadãos. Rat escolheu Hong Kong e o Dubai como exemplos de uma nova cultura urbana, ilustrando o seu conceito a partir do que é feito por grandes marcas, como a Yves Saint Laurent ou a Gucci, que têm lojas nas estações de metro. O Japão foi também escolhido como exemplo desta nova cultura na medida em que, desde 1990, a venda de carros decresceu 45 por cento, em simultâneo com um aumento de população de 20 por cento, citando, por entre risos, uma frase de um japonês que, em tom irónico, afirma que “ter um carro é ‘tããããoooo’ século XX’”. Ou seja, modelos de carsharing, que existem já em várias cidades da Europa, ou até de bikesharing, poderão estar a definir uma mudança de comportamentos já em curso, com os jovens a sentirem-se “embaraçados” por terem um automóvel.


Da sociedade individual para a sociedade da partilha
Em Portugal, como sabemos, esta mudança de comportamentos parece ser como a procissão que ainda vai no adro. E uma ideia similar foi defendida por Tiago Farias, professor no IST, cuja apresentação se centrou, exactamente, na questão da mobilidade eléctrica.

Para o professor, o problema principal reside, precisamente, no automóvel. Não só porque gasta muito, polui muito, custa muito – em termos de tempo e dinheiro – mas porque continua a ser suficientemente barato para ser utilizado em massa. Apesar de ter referido que a situação começa a apresentar algumas mudanças, Tiago Farias assegura que “as pessoas continuam a querer carros” e que, apesar de menos poluente, o veículo eléctrico é “só” mais um veículo.

Discursando sobre a necessidade de uma melhor gestão da mobilidade – que inclui não só a temática dos transportes públicos, o planeamento urbanístico, a questão dos estacionamentos e, por inerência, também a gestão dos espaços públicos, Tiago Farias afirma que está na altura de se mudar de uma sociedade individualista para uma de partilha, sublinhando também a necessidade de uma nova “inteligência sustentável”. Ou seja, inteligente e sustentável será o cidadão que, ao procurar uma residência, tenha em atenção a escolha do sítio, não só porque é agradável, mas levando também em linha de conta se esta se situa, por exemplo, perto de uma estação de metro ou comboio.

O professor do IST chamou igualmente a atenção para um conjunto de questões que nem sempre são bem abordadas no que respeita ao tema da mobilidade eléctrica. Em primeiro lugar, foi você que pediu um carro eléctrico? Não. Pois não. Faz sentido? A infra-estrutura de suporte está disponível? Existe legislação adequada? Há clientes interessados? Quem ganha? Quem paga?

As perguntas não são de resposta fácil, o que leva Tiago Farias a afirmar que o carro eléctrico é interessante, mas não é um milagre. É sustentável, mas não chega e não é a solução tão almejada. E, mais uma vez, a alteração comportamental tornar-se-á crucial nesta necessária mudança de paradigma. Por que nos deslocamos, como nos deslocamos e que regras aceitamos poderá ser um bom ponto de partida para reflexão, especialmente numa cidade como Lisboa que perdeu cerca de 30 por cento da sua população em 30 anos e na qual entram 400 mil carros por dia.

Enquanto conhecedor do programa português de mobilidade eléctrica, denominado MOBI.E, o qual promete tornar-se num novo cluster ambicioso, com base numa rede integrada entre vários pontos existentes em território nacional e que junta, no alcançar do mesmo objectivo, empresas, universidades e institutos científicos, Tiago Farias volta a expressar as suas dúvidas. Previstos estão 687 postos de abastecimento para o veículo eléctrico em 2011, mesmo que os seus promotores estejam conscientes que não têm ainda clientes para tal. O modelo de negócio também ainda não foi especificamente explicitado, nem os early-adopters. Ou seja e em síntese, é necessário definir uma estratégia de mobilidade eléctrica urbana em que o veículo eléctrico pode constituir um complemento, mas não a solução e que coloca em dúvida se, realmente, possa vir a resolver um dos problemas mais gritantes das cidades.

O professor do IST defende assim que este é um desafio significativo não só para o sector dos transportes públicos, mas também para os decisores e cidadãos.

Já em tempo de debate, Hans Rat voltou a insistir na existência de um novo modelo de independência face ao significado do carro, mas admitiu também que, ao nível dos diferentes países da UE, correspondem níveis emocionais igualmente distintos. Se existem já muitos jovens em algumas cidades europeias que optam por diferentes formas de vida que não passam pela noção de propriedade de um carro, basta estar-se atento aos parques de estacionamento existentes em algumas universidades portugueses para afirmar que, por terras lusas, o carro é, e muito provavelmente continuará a ser, o meio de transporte por excelência dos portugueses.


Cidades criativas e inteligentes
A dimensão cultural na competitividade das cidades foi o tema da apresentação de Cristina Azevedo, uma das responsáveis da “Fundação Guimarães Capital Europeia da Cultura”. Começando por um caracterização das diversas realidades, negativas, que coabitam num mesmo espaço – desde a desigualdade, a exclusão social, a pobreza, o crime, o desemprego ou a degradação ambiental – Cristina Azevedo elege a inovação e criatividade como essencial a uma cidade do futuro. Focando as cidades “encolhidas”, esquecidas, com uma diversidade cultural sem uma matriz estabelecida e onde a disrupção na noção de identidade é cada vez mais clara, a responsável defende a noção de “cidade criativa” como uma forma de atrair e reter talentos, para além da necessidade de esta vir a ser encarada como um ecossistema. Para tal, contudo, é urgente que se estabeleça um novo contrato social, um método inovador de planificação estratégica, que se debruce sobre a forma como as pessoas podem pensar e agir criativamente nesses territórios. Crucial será também um novo enfoque no que respeita ao papel das infra-estruturas, no qual se favoreçam a experimentação e o risco e onde a estreita ligação entre ciência, arte e tecnologia possa inventar novas soluções para velhos problemas. E tudo isto dará origem a uma economia criativa, com benefícios óbvios.

Já António Pires Santos, da IBM, fez uma apresentação mais técnica ou, melhor dizendo, mais tecnológica, sobre a integração dos sistemas urbanos ou a importância dos sistemas informáticos para melhorar a qualidade de vida e a sustentabilidade das cidades. O conceito de cidade inteligente foi aprofundado pelo responsável para a Europa da área de Energy & Utilities Business Solutions da IBM, tendo sido definido como uma interligação entre as infra-estruturas físicas, de TI e sociais, a par da própria infra-estrutura de negócio, para aumentar a inteligência colectiva da cidade. Sistemas inteligentes de gestão de água, energia, ambiente, em conjunto com uma gestão igualmente inteligente dos sistemas de transporte e da segurança pública permitem uma visão sobre a cidade muito mais integrada e eficiente.

Promover a afectividade
Visões díspares sobre a cidade enquanto espaço de inovação social foi o tema da apresentação de Diogo Vasconcelos, Distinguished Fellow da Cisco, que ofereceu à plateia uma volta ao mundo guiada pelas novas necessidades, ideias e mercados que estão já a ser implementados nestas “novas” cidades. Sublinhando que todas as soluções que normalmente se apresentam estão baseadas em modelos antigos, aquele que já foi apelidado como “o homem do Presidente” para o mundo digital, afirmou que todas as crises geram disrupções e podem abrir a chave para uma “nova era dourada”. Para o homem que afirma que “somos aquilo que partilhamos”, antes de mais nada, é necessário fazermos um ctrl+alt-delete , ou seja, um espécie de restart a tudo aquilo que nos habituámos a ter como certo e abordar a inovação de uma forma completamente inovadora, passe o pleonasmo, em que no centro desta não se encontram apenas os produtos, mas sim novas formas de gerar capital social e saber lidar com áreas como a saúde, especialmente no que respeita às doenças crónicas ou com o envelhecimento da população. Para Diogo Vasconcelos, a crise é igualmente uma oportunidade para se criar uma nova vaga de empreendedorismo na Europa. A ideia das cidades como desertos de afectividade, em que o multiculturalismo é a norma, tem de ser transformada para poder gerar mais capital social. Uma das formas é inverter o declínio da “rua” como um espaço público, restaurando-se relações de amizade e de vizinhança, tal como foi feito numa iniciativa que teve lugar em Londres, denominada “The Big Lunch” em que as pessoas convidaram os amigos e os amigos dos amigos para almoçarem na rua.

A questão das emoções serem contagiosas e da influência, muito por causa das redes sociais, que os tais amigos e amigos dos amigos têm nas ideias, nas emoções, na saúde ou na política, ou seja, no comportamento geral, é algo a que se tem que dar uma obrigatória atenção.


Uma outra ideia defendida por Diogo Vasconcelos prende-se com o aumento das plataformas de ajuda mútua – ou seja, a criação de redes sociais “privadas” com quem nos está mais próximo. Este conceito está ligado igualmente às comunidades futuras, ou seja, existem já inúmeras iniciativas em que, através da Internet, se criam, por exemplo, redes de ajuda local aos idosos. Ou se criam plataformas para ajudar os doentes de cancro. Ou se ajuda os seniores a resolverem problemas tão aparentemente simples como instalar uma câmara Web no computador “para conseguir falar com o meu neto”. Todas estas plataformas online de apoio social terão que ser uma realidade cada vez abrangente nas cidades que albergam tantos “anónimos” que, muitas vezes, vivem sozinhos e sem qualquer tipo de ajuda. Como afirmou, “o que leva à morte é a sensação de fardo e de inutilidade”, a integração de idosos em serviços à comunidade é, igualmente, uma tendência crescente em vários agregados urbanos.

O director da Cisco introduziu igualmente a urgência de se criar e experimentar novas formas de financiamento, as quais denominou como “títulos de impacto social”. Com base na premissa de que estamos a mudar de um Estado do bem-estar para uma sociedade do bem-estar, Diogo Vasconcelos deu um exemplo em que é o dinheiro do mercado e não o do Estado que pode resolver problemas sociais. Ou seja, se o problema X for minorado, o Estado paga, a estes investidores sociais, uma compensação em obrigações. Caso não o seja, não terá de pagar nada.

O responsável da Cisco alertou também para a necessidade de se “conhecer o outro”, para o denominado Diálogo das Civilizações. Defendendo que faltam canais para promover o entendimento com o outro, algo que não é um luxo, mas uma pré-condição para o diálogo, Diogo Vasconcelos falou do “Dialogue Café”, um projecto que lidera na Cisco e que já teve uma sessão em Portugal. A ideia é simples mas poderosa: com base na premissa que as pessoas têm mais em comum do que aquilo que as divide, dar-lhes a possibilidade de se “encontrarem” traduz-se na exploração de interesses comuns, no desencadear de colaborações e no estímulo de ideias sobre como enfrentar a(s) crise(s). Assim, o Dialogue Café é isso mesmo: uma mesa de café, um computador e ter-se o “outro” à nossa frente, criando-se janelas sobre mundos diferentes, a partir de espaços públicos do tipo “café”. Com o apoio das Nações Unidas para Aliança das Civilizações, os dois primeiros Dialogue Cafés abriram em finais de Maio último e em simultâneo, no Rio de Janeiro, na Universidade Cândido Mendes e em Lisboa, no Museu da Moda e do Design. Mas são várias as cidades que têm já “encomendado” este modelo e tão díspares como Amesterdão ou Telavive, ou Cairo e São Francisco. Para um diálogo e para cidades sem fronteiras.

in Portal VER